A ansiedade gera angústia. Assim a mente dos homens sempre fica nas praias que não existem mais. Com o passar do tempo, ela quer projetar até mesmo as praias que não vão existir no futuro. E a todo momento todos os rios estão chegam a praias novas, que um segundo antes não existiam, total desconhecidas e inesperadas. Isso é sutil: se todas as suas vontades fossem satisfeitas, sua vida seria feia.

Pense nisso: os hindus e o jainistas têm um conceito de liberdade (moksha). Ele funciona como um estado de consciência no qual nada muda. Pense por um momento — nada muda e as pessoas que se libertaram, segundo eles, ficam nesse moksha absolutamente imutáveis, sem nada mudar — isso seria um tédio completo.

Você não pode melhorar nada: a liberdade é total. Não se pode pensar em nada mais chato: você ali sentado, sem que nada mude, sem nada dizer. Cada momento parecerá uma eternidade. É um tédio. Para o Tantra, com base nas 112 ações, a alma da existência é a mudança. E a mudança deixa tudo mais rico. Na terapia tântrica, o convite é experimentar e passar pelo processo.

Imagine se alguém fosse sempre jovem, sempre igual, sem mudança de estações; nenhum verão, nenhum inverno, nenhuma primavera ou outono. Será alguém morto, de plástico, como nas histórias de vampiro. Não se pode amar alguém assim: o pesadelo dos mitos. Você vai querer ir para o outro lado do mundo a fim de fugir dessa pessoa.

Da beleza da não – ansiedade

Quando alguém que viveu a sua vida envelhece, envelhece de forma bela e se torna bela ao ficar mais velha. Se não viveu, passou a existência em ansiedade, apega-se a algum momento passado que não existe mais. É uma situação estranha quando alguém fica tentando se mostrar jovem, quando não é. A pessoa fica fora de estação, desintegrada de seu ser e estar, como que fora de compasso com a vida (é bela!).

Tudo é bonito no seu momento e tudo tem o seu momento. E por isso escapar da ansiedade: ela tira a pessoa do compasso. Assim, se você sente que sua vida está fora de compasso, já pensou em fazer aula de música, de algum instrumento musical? Parece que não tem nada a ver, mas ser verdadeiro com o momento: quando jovem, sê jovem; quando velho, sê velho, às vezes é uma questão de percepção de ritmo. Não misturar nem confundir as coisas.

Quando eram crianças provavelmente pensavam em se tornarem jovens, em crescerem, em serem poderosos; serem como o pai, como os adultos. Deviam pensar nisso quando crianças; perderam a infância e depois, no fim, querem a infância novamente. E falam, escrevem poemas sobre o paraíso que era a infância.

De fato, nesse senso, da sua parte não há de se fazer nada. É simples, seguir a natureza, vir ao presente. Então, entrar em um estado de ação fluida, inação. Como se estivesse sendo levado à deriva pela maré. Se tentar nadar pra cá ou pra lá, vai acabar saindo do ritmo e do compasso. Assim, tudo o que você fizer sairá errado. Por isso, o próprio fazer é errado. No estado de graça, o fluir.

Perder toda a vida por perder o primeiro passo?

Quando você perde o Éden, fica a falar sobre ele. Quando vive o Éden, a mente nem se dá conta de falar. Além disso, se você viveu o seu paraíso quando era jovem, então a sua aurora é bela. Isso porque, é baseada no Eden que você viveu quando jovem. Assim, a beleza tem uma graça de vida.

Se você tiver tido uma juventude, plena, é bem possível que a sua velhice será um pico, como o Evereste. Assim, os cabelos brancos em uma cabeça plena de si são belos como a neve de um pico alto, como o Evereste. E com todas as coisas passadas e cheias de si, como todos os rios fluidos, todas as praias cheias de brisa, você pode se deitar.

Sair da ânsia de ser o que não se é e chegar um vez na vida naquilo que não há, no vazio de ser a si mesmo. Não há para onde ir, nada a fazer: e assim o estado da graça de desapegar e relaxar!

Se uma pessoa que já viveu muito não consegue relaxar, isso significa que essa pessoa não viveu a vida. E se não conseguir relaxar, como será possível morrer de boas? Mas aí você me diz: quem morre de boas? Nunca vi. Dessa forma, é um parto pra nascer e outro parto (pior) pra morrer. Por isso, quem não consegue morrer, se dá por criar o desejo de um eu permanente, de um Deus que não muda.

Simplesmente saiba que a mudança é Deus, o tempo é Deus; a mudança é a única permanência que há no mundo. Saiba que só a mudança é eterna. Tudo o mais está mudando — exceto a mudança. Ela é a única exceção e não há necessidade de ansiedade alguma.

O brahmacharya — termo yogue para o celibato — torna-se uma luta contra a natureza. Se você não sentir fome, e se forçar a comer, isso também vai contra o natural. Quando não se sente tesão e continua no sexo, ou porque a outra pessoa precisa, ou porque a sociedade cobra, ou mesmo as duas coisas, você vai contra a consciência natural. Seja o que for que ela seja, sem nenhuma imposição de ego e ou (auto – ) repressão. A consciência é comum — e desnecessariamente você a proclama como sua. Nunca foi sua. Nesse sentido a terapia tântrica ajuda a aflorar consciências naturais diferenciadas.

Está sempre flutuando. Está em toda a sua volta. Torne-se mais poroso, mais permissivo, deixe-se levar profundamente — porque somente o todo pode entender o todo. Mas o todo pode fluir através da parte, se a parte permitir… isto é meditação; permitir que o todo flua; você desaparece completamente de cena… e então subitamente você se torna o todo. Mas por que é tão difícil ser natural? Somente uma dificuldade: se você for natural, não poderá ser alguém — não existe outra dificuldade. O sexo surge e você deixa que aconteça;

No Oriente — no passado, também no Ocidente — as pessoas lutavam contra o sexo, e isso vai contra a natureza e a consciência. Diziam que algo estava errado, que há algo errado no sexo — porque no sexo você se torna natural como um animal e todos os pregadores têm dito que você não deve ser como um animal. O que há de errado em ser animal? Olhe para os pássaros, olhe para os animais, vá às florestas e veja! A consciência é viva neles.

Sexo e consciência na vida natural

Não vá aos zoológicos, porque lá não há animais reais; eles estão corrompidos pelos seres humanos. Procure o selvagem. O que há de errado com ele? Parece tão belo, não há nada de errado em torno dele, mas todos os moralistas, todas as pessoas chamadas religiosas têm ensinado: “Não seja um animal!” E o seu ego sente que esse é um objetivo. Como se pode ser um animal? E o sexo o traz totalmente ao tino nato.

De toda forma, um monte de gente lutando de milhares — os sinais mudam, mas a luta permanece.. O Tantra diz para viver como um animal — com uma única diferença: consciência, seja no sexo ou em qualquer outro campo. E você só vai encontrar uma barreira pra isso: a dúvida. Só que se você confiar, tudo se volta ao natural, também de forma natural. Se você desconfiar da natureza, tudo é perturbado.

O Tantra diz para ser e estar desperto quando sua natureza interna ocorrer. E assim, permitir que ela floresça. E onde quer que ela te leve, está tudo bem. De qualquer forma, no final, a natureza vence, mesmo que se criem sistemas complexos de brahmacharya, a natureza tem intensão e força maior. Isso porque no final somente o todo pode ser bem sucedido. Por que então lutar desnecessariamente desde o princípio?

Para uma energia fluida é muito simples aquecer o corpo. Quando uma chama arde, ela arde por causa do oxigênio. Se não há oxigênio, o fogo se apaga automaticamente, se torna congelado. Então, por meio da respiração, com esforço e consciência de um farto respirar, isso traz cada vez mais ar, e quando tem mais ar de pronto, mais fogo se dá dentro de si.

fogo congelado

A primeira coisa que um terapeuta tântrico deve saber sobre você é se você é uma pessoa orgástica ou não. Se for, se todo o seu ser vibra quando você faz amor, e o fenômeno da vibração é tão profundo que você não existe mais. Então você se torna apenas um fluxo, da cabeça aos pés a energia se move como uma correnteza: não existem em você blocos de gelo, tudo se dilui.

Depois de fazer amor, você dorme profundamente como uma criança, porque a energia circulou. Você brincou bastante, está cansado, mas esse cansaço é muito bom. Esse cansaço é relaxante, agora você pode relaxar — e o corpo sente-se vivo. Por isso há tanta atração pelo sexo — porque, na verdade, ele é o seu corpo tentando encontrar uma maneira de ser orgástico, de ser como um rio, de derreter.

Quando se está gelado, fica difícil entrar em relações. Isso porque, a pessoa fica fechada dentro de si mesma, cria uma prisão (ou cria muitas) — e nessa prisão não há caminho para o Samádhi. Isso significa que é preciso derreter-se. Assim, antes de alcança-lo, terá que se relacionar com outras pessoas do mundo. Porque quando isso se passa, — ou seja, quando se ama, quando se faz carinho — o seu corpo dilui, ele flui e derrete. Quando ele flui, um outro passo pode ser dado.

Os santos e a consciência do fogo congelado

É óbvio que sem ar não há fogo, ele se torna congelado. Quando quem pratica a meditação parada toma conta da meditação vivaz, acaba por reagir contra, normal. Essas pessoas investiram tempo demais em tornar-se plantas. Elas não amam, e pensam que são santas — estão simplesmente congeladas, sendo cubos de gelo. Não há nenhuma energia em suas vidas, mas elas pensam que estão desapegadas.

É óbvio que há um desapego quando você entra no sutil, mas esse desapego é totalmente diferente. E há um desapego que acontece quando você não está fluindo de forma alguma. Por isso as meditações ativas te são formas criar calor, mais calor até do que o próprio sexo pode dar. As meditações, em particular aquelas que são feitas aqui no Attitude! Tantra, visam criar fogo dentro de você.

Do mesmo jeito, alguém morto está desapegado. Ou seja, um homem morto é celibatário — um homem morto está completamente morto. Você pode estar desapegado como um homem morto; é o que acontece em todas os mosteiros do mundo inteiro. E você pode estar desapegado de uma maneira completamente diferente, de um modo qualitativo e diametralmente oposto. É quando você está tão vivo que o fogo atinge um ponto onde a água não flui para baixo, mas começa a fluir para cima.

Mais fogo precisa ser criado dentro de você, você tem de se tornar uma fornalha. Absorva mais oxigênio, esforce-se mais, permita que o corpo se movimente o máximo possível, trazendo energia, pulsando de energia. Ela existe — é só fazê-la pulsar. Viva como chama que arde de ambos os lados ao mesmo tempo. E um dia você notará que a energia sutil está mexendo, e que você se tornou uma chama.

A morte é o último e primeiro mistério da existência e você sabe… poucos falam sobre esse assunto. Essa série é baseada em uma coletânea de pesquisas feitas através dos últimos cinco milênios. Realmente, a vida que você conhece é usada para colocar um cortina de fumaça densa para esconder de você uma única verdade, o erro da Matrix, o agora em agonia. Antes de continuar, me permita dizer que a oportunidade que você tem nesse momento é dada a poucos.

No fundo, você sabe, sistema e anti-sistema se esforçam para esconder de você a verdade mortal. Assim, toda essa cultura moral é construída para desconsiderar essa estridente, porém simples “verdade“. Você é mortal e pouco a pouco se despede da existência, desconsolada.

Da mesma forma que os tigres desenvolveram técnicas para que sua caça não o perceba, e dessa forma, o processo todo passa despercebido, quase inconsciente. Isso porque você criou para si a armadilha da inconsciência a respeito disso, e uma hora a conta chega, ah… sempre chega. Não há necessidade alguma de fazer qualquer alarde a respeito desse fato. E talvez seja o não alarde a maior armadilha de consciência que a própria humanidade desenvolveu para si mesma.

Portanto não há necessidade de entrar em pânico, ainda não chegou o tempo da sua morte, esse tempo fica para mais tarde. Se me permitir dizer para simplesmente respirar um pouquinho, não adianta parar de respirar enquanto lê esse texto. Na realidade, o tempo que você fica assim, com a respiração travada, você está adiantando a morte da sua vida. Apenas se conscientize de sua respiração nesse instante, se conseguir. Se não, talvez seja melhor parar de ler esse texto por alguns instantes. De forma a parar de sentir essa de angústia dolorosa no peito.

Sentenças da agonia do agora paradoxal

Talvez não esteja muito claro pra você se conversar sobre ela vai “ajudar” de alguma forma. Não posso te dar nenhum conforto nesse momento. Você sente atração pelo abismo, pela escuridão. Duvida? O que você acha que é aquela sensação de vertigem quando olha de um alto andar de um prédio?

Nietzsche

Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E, se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você

Enquanto verdade franca, acredito que esse seja o menor dos impactos que você vai ler nessa série. E também não adianta ficar elaborando explicações racionais e científicas, nesse caso, elas acabam se tornando uma fuga. Atualmente, não existem verdades científicas sobre isso, e talvez nunca existam. Mas tende dizer qualquer verdade religiosa para alguém que está em luto. Nada do que disser vai servir. Ela é o que é. Porém, ela costuma tomar conta da existência de alguns seres humanos, muitos inclusive, de forma paradoxal.

Antes mesmo da pessoa nascer a sentença é dada, e não adianta entrar em desespero. Assim, ninguém vai te salvar de si, da sua própria existência limitada. Família e vizinhos ausentes talvez te ajudem a passar pelo processo, porque chega um momento que sua consciência estala, e a vibração dela vem com uma profunda aceitação. Você compreende que lutar torna tudo muito pior, talvez mais rápido.

Não acredita? Sem problemas, o veneno só é veneno em determinada dosagem. Tentar adivinhar o plano que a vida tem para você é irrisório. Mesmo porque, a vida é a maior das predadoras, e como eu te disse na primeira parte da série, vida e morte são codependentes. Assim, a única salvação do agora é ter consciência de que todo o seu ser está agonia.

“Deus está morto”, anunciou Nietzsche, e olhando tudo à minha volta, percebi que eu também estava. Assim, a celebração é um dos maiores elementos do Tantra, e um dos maiores tabus da humanidade, a morte, é cheio de tempestades. Isso porque, ela é a única certeza da vida. Então, vamos combinar uma coisa? Se eu estiver entrando em presunções, você me avisa?

Já imagino você argumentando que Tantra é vida, tantra é amor, tantra é tudo o oposto de morte. Seguidamente eu respondendo, tranquilamente, talvez até com um ar de cinismo racional: se não houvesse a morte você sequer estaria com vida nesse instante. Ou seja, a vida depende intrinsecamente da morte, assim, como a vida depende intrinsecamente do sexo, outro fenomenal tabu da humanidade. Sabidamente não é muito confortável “tocar” nesses dois assuntos.

Em outros tempos e outras culturas talvez isso fosse diferente. Na cultura latina, a morte é retratada normalmente com pessoas chorando e se jogando no velório, “querendo morrer junto”. Nesse contexto, dizemos que [nós] os latinos, fazem tempestades com a morte. Em outro ponto de vista, na cultura anglo-saxã, a morte é retratada com limusines e roupas elegantes. Estamos na era da informação, qualquer coisa que eu escreva aqui você pode pesquisar e verificar. Pesquise por exemplo quantas células estão morrendo no seu corpo nesse instante. Pesquise também sobre a vida eterna assexuada e a finitude da vida sexuada.

Entrando e saindo do conforto

Talvez seja mais confortável lidar com a morte se você estiver se centrando na sua respiração. Note seu corpo nesse momento, impressão minha ou você entrou em um processo de tensão? Então faça algumas respirações profundas e sinta-se relaxar. De forma que os próximos cards talvez sejam um pouco mais densos, mas tenho certeza de que se você mantiver a respiração consciente durante o processo da sua vida, também terá uma morte profundamente consciente.

Essa jornada vai ser longa, tenha certeza. Vai durar uma vida toda, sem ironias. Nos próximos “capítulos” vou te dar detalhes insuportáveis porque tudo o que você pensa que sabe ou que já considerou sobre o tema está para receber alguns bons chacoalhões. Estas tempestades com a morte farão você ver como tudo funciona sob um prisma diferente daquele que está pré-determinado em sua mente.