Apesar de não ter falado nesses termos, a idéia do Samsara se apoderou de um dos maiores do século passado, Friedrich Nietzsche. Diz que tudo já aconteceu antes, está acontecendo outra vez e acontecerá novamente. Recentemente, uma série do Netflix, Dark, usou esse tema. Não exatamente igual, mas ainda assim igual.

Se você pensar sobre isso, parecerá sobrenatural que você já tenha lido isso antes muitas vezes antes — e está lendo isso novamente. Ou seja, como um deja vou. Pode parecer estranho, como um dogma, pode ser que você se sinta que a idéia é difícil. Mas assim é. Isso porque a natureza aproxima as pessoas, depois as solta só para unir de novo.

Muitas coisas estão envolvidas. Primeiro: você não precisa fazer muito esforço. Fazer esforço pode ser uma barreira porque nada vem antes da estação certa — todas as coisas vêm em suas devidas estações. O esforço demasiado pode ser perigoso. O esforço demasiado pode ser um esforço para que as coisas venham fora de estação. Isso não significa não fazer qualquer esforço. Porque se você não fizer nenhum esforço, então não virá nem na devida estação. É preciso um tanto certo de esforço.

Samsara natural

Nenhuma saída é para sempre. Nenhuma união é o fim. A união é só um ensaio para o tchau. A saída é só um ensãio para a união. O eterno retorno dá o belo para a vida. Como na frase ‘deus é verão e é inverno’. Na sessão de terapia tântrica, um dos objetivos é essa reconexão com a sua própria natureza com e sem esforço.

Dessa forma, para alguém do campo, o ano não é dividido em meses, mas sim em estações, verão e inverno. De nada adianta ter pressa. Além disso, nada se pode fazer com as sementes se não tiver o tempo certo. Elas não ouvem. Ninguém pode leva-las à escola; E elas não se importam; não estão com pressa. Simplesmente esperam na terra.

E quando o tempo chega, brotam e crescem por si mesmas. Não estão preocupadas com você, se você está ou não com pressa, ou se algo pode ser feito. Você não pode persuadi-las, não pode falar com elas — elas têm seu próprio tempo. Alguém do campo torna-se o exemplo da paciência. Ou seja, entendem da matéria da vida.

Existem algumas pessoas que se iluminam e permanecem em silêncio. Outras pessoas se iluminam e falam a respeito. Essas se dividem em positivas e negativas. As negativas chamam de “vazio”: Shunya, o vazio, o nada, o não-ser, anatma. As positivas chamam de “o ser absoluto”, o BRAHMA, ATMA, supremo. Estas são as duas maneiras para descrevê-lo. Uma delas é positiva, a outra é negativa. Buda representa o olhar negativo, olhar para o fenômeno da iluminação, interpretou como vazio, enquanto Shiva tem uma ótica positiva. Através dos sutras de shiva que surgiu o Tantra, e a partir do Tantra, a Terapia Tântrica e o Tantra Yoga.

Isso acontece porque não dá para descrever com relatividades. Ou se descreve de forma inteira, e aí a pessoa vai colocar uma qualidade extrema, se permanece em silêncio a respeito do fato. Tudo ou nada – eles parecem opostos, só que dizem a mesma coisa. Tudo e nada são a mesma coisa, ninguém entende, porque nos dicionários eles são opostos, mas na vida não são.

As diferenças estão nas relatividades. Isso porque se você disser “eu amo todos” ou se disser “eu amo ninguém”, as duas frases significam o mesmo. Os extremos acabam se tocando, como um fio de linha, ao fazer um circulo… Então você pode chamar o todo de nada, ou você pode chamar o nada de todo.

Buda e Shiva: como o oriente interpreta a origem da historia de Adão

Se você disser “Deus é vida” logo vai perceber que não há sentido, porque a vida depende da morte para existir. As religiões brigam com a lógica desde tempos. Se deus é onipotência, onipresença e onisciência, então ele precisa incluir tudo. Ele precisaria incluir a morte dentro dele tão inteiramente quanto tem a vida, caso contrário, a morte é de quem? E se a morte pertence a outro ser e somente a vida é de Deus – então existem dois deuses.

Eles não chamam qualquer coisa, porque tudo o que você chamar – se você chamá-lo de ser ou não-ser – no momento em que dar-lhe um nome, um termo, uma palavra, você ter errado, porque inclui tudo.

Se Deus não for o criador e o destruidor, e se você diz que Deus é o criador, então quem é o destruidor? Se você disser que Deus é bom, então quem será o mal? Devido a esta dificuldade, os cristãos, zoroastras, e muitas outras religiões criaram um lado Diabo ao lado de Deus, porque a quem vai ser o mal? Eles criaram um diabo.

Mas nada está resolvido – o problema só é empurrado um passo para trás, porque então ele pode ser relevante perguntou: “Quem criou o Diabo?” Se o próprio Deus cria o diabo, então ele é responsável. Mas se Deus não criou o Diabo, como Deus pode destruí-lo? É impossível. Teólogos ir em dar algumas respostas a uma pergunta, mas a resposta novamente cria mais perguntas.

Uma parte do teu ser se desenvolve como pedra, como gelo. Para quem tem dificuldade de sair da inércia, o sexo, a raiva, o ódio, faz você se mexer. E é melhor mover-se para baixo do que tornar-se pedra ou planta (aliás, algumas plantas se movem mais que alguns seres humanos, por sinal). Se quiser ver gelo, pode ir aos mosteiros, católicos ou jainistas, tanto faz. Isso porque a linha do pensamento do mosteiro não importa muito. Ou seja, eles são contra o sexo, são contra a comida, são contra tudo. Desenvolvem a arte de congelar o fogo por meio do negativo, da negação. E se você nega, aos poucos a vida perde o fogo — pois o fogo é uma força positiva.

Se você nega, torna-se frio. E é por isso que existe uma parte do teu ser que está congelada. Por isso, parece ser melhor dizer para que se apaixone, que faça sexo, etc, porque isso pelo menos fará o gelo derreter. Também é óbvio que só a paixão e o sexo não farão com que você crie asas. Mas ao menos te dará uma consciência de matéria e das raízes para que você note que é dá para parar de ficar imóvel.

O Tantra mostra às pessoas: “Se você estiver frio, em gelo, vá para o sexo, isso o ajuda”. Obvio que só isso não é basta para chegar ao Samádhi. Mas ao menos um fato vai rolar: você começa a se mexer. Ou seja, te ajuda a pelo menos viver a vida. E uma vez que começa a se mexer, é mais fácil de mudar a direção e sentido do movimento. E por consequência, você nota que a dimensão também vai poder mudar.

Como sair do fogo negativo?

A negatividade é um método suicida. Aos poucos, você vai morrendo, você vai se matando e então congela. Mas nada se consegue com esse processo e na verdade, ele é uma queda. Pode-se ver claramente em seus corpos como processos de congelarem-se. Ao tocar a pele, sente frio. Ao segurar em suas mãos, sente que está dando a mão a um galho morto, não há nenhuma moção: nem uma energia se irradia. Não dá, não tira, não fala. E você pode as pessoas: só pelo jeito de andar, pelo rosto, pela forma como se mexe, você pode ver se são gelo ou não.

fogo negativo

Quando você ama uma pessoa, quando sente alguma coisa por outra pessoa, a sua bioenergia começa a vibrar. É por isso que no sexo você se sente vibrar — o fogo iniciou a ação; e quando você faz amor, a temperatura do seu corpo sobe. O amor é como a febre, uma febre temporária criada pelo seu corpo. É por isso que depois do amor você relaxa completamente, sente um fluxo.

Se você tem um orgasmo sexual, aconteceu um fluxo completo, a sua bioenergia está se movendo. Essas pessoas que não podem ter orgasmos profundos têm dificuldade para meditar também — pois se são podem se mover, como poderão? A primeira coisa é o movimento. A segunda coisa é tornar o fluxo de movimento sutil. E muitas pessoas não podem se mover, sentem medo, estão congeladas.

Atualmente os físicos dizem que a energia é a base da vida, que tudo não passa de formas de eletricidade. Sábios anciões dizem que é o fogo. Qual é o desvio entre os dois termos? A palavra ‘fogo’ é mais bela do que ‘energia’. Fogo é um termo um tanto mais fero e dá uma sensação maior de vida. Quando você diz que a eletricidade é a base, isso soa como se o universo fosse como um robô, porque a eletricidade tornou-se associada a peças do dia a dia; e faz também, nesse caso, Deus parecer uma máquina. Mas olhe por uns instantes — a energia elétrica é fogo.

Quando você é vital, quando está vivo, você é flamejante, inflamado. Mas vitalidade é fogo — os hindus chamaram esse elemento básico de prana, a energia da vida. Outros deram o nome da base de tudo de élan vital, tal qual o prana. Quem quer que a busque, de uma forma ou de outra chega cada vez mais perto do fogo. No fundo, esse existir pode ser tido como fogo, que é a própria vida. Zaratustra, na sua religião não teve dúvida: fez do fogo o sumo Deus.

O fogo contém em seu fundo muitas coisas. Porque essa é uma forma de falar, é uma metáfora: saber do feito do fogo, do seu signo. Heráclito, tido como o pai da dialética, por sua vez, quer indicar alguma coisa profunda quando diz que o fogo é o substrato. Observe o fogo numa noite de inverno; sente-se perto dele também e apenas observe, simplesmente sinta o calor.

Fogo da vida na dicotomia da linguagem

O frio é morte, o calor é vida. Um corpo morto é frio, um corpo vivo é quente — e você tem de manter um certo calor o tempo todo. Existe no homem um mecanismo interno para manter o calor sempre dentro de um certo limite, porque somente entre esses determinados graus a vida é possível. A vida humana só existe entre 35 e 43 graus. Há outras vidas que existem em outras temperaturas, mas a vida humana tem um espectro de apenas 8 graus.

Por isso, o sol é a fonte, a energia solar é fogo. Observe: à noite tudo se torna triste. Até mesmo as árvores, os pássaros, tornam-se silenciosos, sem cantar, todas as canções se perdem. As flores se fecham e toda a terra espera o nascer do sol. E pela manhã, o sol ainda não surgiu e a terra começa a se preparar para recebê-lo. Os pássaros começam a cantar antes mesmo que o sol tenha surgido — isso é um sinal de boas vindas. As flores começam a se abrir de novo, tudo se torna vivo outra vez, o movimento começa.

fogo da vida
Fogo primordial

É por isso que dizemos: “Meus calorosos cumprimentos”, e não “Meus frios cumprimentos”; amor quente e não amor frio — porque o frio simboliza a morte, o calor simboliza a vida.

Kundaliní – a serpente de fogo congelado

Nas muito antigas escrituras tibetanas, diz-se que um Mestre é como o fogo e o discípulo é como a água. Se o discípulo entra em contato profundo com o Mestre, a qualidade do discípulo muda e torna-se a qualidade do fogo, assim como a água evapora quando aquecida. A água sem o fogo move-se para baixo. Com o fogo imediatamente uma mudança acontece. Além dos cem graus, o fogo torna a água pronta para ascender; a dimensão muda, a transformação se passa.

O fogo move-se sempre para cima — mesmo que você vire a chama para baixo, ela sempre sobe, não pode descer. O fogo é um esforço para alcançar o ponto mais alto, o ponto ômega. Outra coisa: quando você observa uma chama, só pode vê-la por alguns segundos, por uma fração de segundos, e depois ela desaparece. Quanto mais alto você vai, mais desaparece; quanto mais você desce, mais sólido se torna.

Dessa forma, o fogo é um símbolo bastante significativo também de outras maneiras. Se você observar o fogo, verá um constante movimento ascendente. A água flui para baixo, o fogo flui para cima — é por isso que os hindus falam do ‘fogo da kundaliní’. Quando você se eleva, não está sendo como a água, mas como uma chama de fogo quente. Quando o seu ser interior muda, você sente uma chama subindo. Assim, até mesmo a água, quando em contato com o fogo, começa a evaporar para cima, e sublima.

“Deus está morto”, anunciou Nietzsche, e olhando tudo à minha volta, percebi que eu também estava. Assim, a celebração é um dos maiores elementos do Tantra, e um dos maiores tabus da humanidade, a morte, é cheio de tempestades. Isso porque, ela é a única certeza da vida. Então, vamos combinar uma coisa? Se eu estiver entrando em presunções, você me avisa?

Já imagino você argumentando que Tantra é vida, tantra é amor, tantra é tudo o oposto de morte. Seguidamente eu respondendo, tranquilamente, talvez até com um ar de cinismo racional: se não houvesse a morte você sequer estaria com vida nesse instante. Ou seja, a vida depende intrinsecamente da morte, assim, como a vida depende intrinsecamente do sexo, outro fenomenal tabu da humanidade. Sabidamente não é muito confortável “tocar” nesses dois assuntos.

Em outros tempos e outras culturas talvez isso fosse diferente. Na cultura latina, a morte é retratada normalmente com pessoas chorando e se jogando no velório, “querendo morrer junto”. Nesse contexto, dizemos que [nós] os latinos, fazem tempestades com a morte. Em outro ponto de vista, na cultura anglo-saxã, a morte é retratada com limusines e roupas elegantes. Estamos na era da informação, qualquer coisa que eu escreva aqui você pode pesquisar e verificar. Pesquise por exemplo quantas células estão morrendo no seu corpo nesse instante. Pesquise também sobre a vida eterna assexuada e a finitude da vida sexuada.

Entrando e saindo do conforto

Talvez seja mais confortável lidar com a morte se você estiver se centrando na sua respiração. Note seu corpo nesse momento, impressão minha ou você entrou em um processo de tensão? Então faça algumas respirações profundas e sinta-se relaxar. De forma que os próximos cards talvez sejam um pouco mais densos, mas tenho certeza de que se você mantiver a respiração consciente durante o processo da sua vida, também terá uma morte profundamente consciente.

Essa jornada vai ser longa, tenha certeza. Vai durar uma vida toda, sem ironias. Nos próximos “capítulos” vou te dar detalhes insuportáveis porque tudo o que você pensa que sabe ou que já considerou sobre o tema está para receber alguns bons chacoalhões. Estas tempestades com a morte farão você ver como tudo funciona sob um prisma diferente daquele que está pré-determinado em sua mente.