Apocalipse Now

A pós-dualidade no encontro do Oriente com o Ocidente

No sábado passado ao passar pelos vídeos que a linha do tempo do Facebook me mostrava, me deparei com um Padre que proferia as palavras de que Yoga é união com tudo. Yoga seria união com a natureza, união com o divino, união com os animais. O vídeo foi compartilhado pela página do Instituto Hermógenes, este é um mestre de Yoga respeitado, com muitos discípulos e livros vendidos. Eu inclusive tenho um exemplar do “Autoperfeição com Hatha Yoga” que considero um livro de qualidade quando o assunto é “Yoga”. O Padre conta no vídeo um pouco sobre sua relação com o Hermógenes e como celebra sua missa yogui.

O episódio em que o Padre e o Prof Hermógenes se conheceram é relatado no vídeo: o Padre ministrava um curso “Relaxe e Viva Feliz”, o que por si só já possui um tema inerentemente tântrico.  Quem está familiarizado com a literatura tântrica, já percebeu que um dos fundamentos do Tantra está no relaxamento. O simples relaxar já elimina estados de ansiedade que acometem as pessoas hoje em dia com mais frequencia do que se desejaria em uma sociedade saudável.  

“Livrai-nos senhor de todos os males”, menciona o padre no vídeo, enquanto aparentemente está deitado no chão.Os tempos se mostram apocalípticos (não no sentido bíblico de “fim dos tempos”, mas no sentido de esquizofrenia) na medida em que o Yoga se origina do Tantra, o qual possui uma visão não dual do universo. Para um Yogui, a compreensão de que o universo não está dividido entre bem e mal precisa estar clara, porque se não o estiver, a tendência a exaltar aspectos que desestabilizam a consciência ocorrem: a luta toma espaço no lugar da aceitação e a mente leva o praticante a um estado instável de conflito.

O leitor que estiver interessado em saber mais sobre o modo de vida tântrico, que é desrepressor e sensorial, pode mandar uma mensagem. O religar Tântrico possui nuances não duais que se aplicadas no dia a dia melhoram bastante o dia a dia do adepto tântrico. Para quem tiver curiosidade com relação ao vídeo com o relato do padre, acho que vale a pena dar uma olhada. Afinal, não é sempre que se vê um padre fazendo referência ao conhecimento das técnicas milenares do Yoga e do Tantra.

A Sexualidade, o Tantra e o Yoga

O Padre – sacerdote da Igreja Católica – cujo dogma com relação ao sexo se apresenta quase como um clássico: todo aquele que for batizado dentro da igreja católica, está se purificando com relação ao pecado original. Um aspecto que me chamou atenção no vídeo: o padre, de forma sutil menciona união com todos os tipos de seres possíveis; exceto uma: a união sexual.

Para quem pratica ou praticou Yoga por tempo suficiente, sentiu que a experiência e prática conferem um aquietamento e estabilização da consciência. E quem passou por um tempo mais que suficiente, a ponto de entender melhor a ideia da filosofia Yogui, aprendeu que a trilha do Yoga conduz ao Samádhi. Muitos se referem a este estado como um estado de iluminação. Pessoalmente, gosto mais do termo “Iluminador”, no sentido de que com a consciência expandida é possível jogar luz (de diferentes cores, formas e intensidades) sobre aspectos da vida que de outra forma estariam na escuridão.

A geração atual provavelmente será lembrada pelos memes e pelo desejo de morrer. Na leitura do livro “Do Sexo à Supraconsciência” nos deparamos com um exercício de lógica. No segundo discurso do livro chega-se a um momento histórico desconhecido e que provavelmente não será desnudado tão cedo: como teria sido a experiência da primeira pessoa que atingiu o Samádhi? Um ser humano estaria apto a praticar aquelas posições de forma intuitiva e espontânea por saber que se iluminaria? Possivelmente não! Possivelmente, o estado de consciência expandida foi vislumbrado primeiramente em um exercício de ato sexual.

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O Tantra corresponde ao lado feminino da existência

É difícil de imaginar – sendo tântrico – um jeito mais natural de expandir a consciência que não através da sexualidade. Com o tempo, o ser humano buscou outras formas de conquistar aqueles vislumbres obtidos através do sexo e que não fossem tão rápidas. Foi então que surgiu o Yoga e a Religião. Note que pela etimologia da palavra, ambas possuem a mesma raiz “yug”, que significa “união“, e de novo chegamos ao discurso do Padre Yogui, que não está errado, mas ele não chega no ponto fundamental do significado de união e a forma mais rápida de vivenciar uma sensação de “união” com o todo: a união sexual.

A maior parte dos casos discutidos de expansão de consciência quando o assunto se trata de Yoga ignora o fato de que a Kundaliní se manifesta sexualmente e se o Yoga ativa a Kundaliní, esta que por sua vez sobe pela coluna vertebral literalmente acordando os chakras até que se chega no topo da cabeça onde estão localizados os últimos chakras. No entando, o que se tem na história do Yoga são sucessivos atos moralistas no sentido de tentativa de dissociar sua prática da prática sexual. Ora, quem pratica yoga na atualidade já deve ter tido uma percepção fundamental: o yoga aumenta muito a libido. Torna o ato sexual mais prazeroso e um ato de presença. Os alongamentos, técnicas de purificação das mucosas, respiratórios promovem não só a expansão da consciência mas um estado de sexualidade receptiva e meditativa. O estado de yoga é um estado de sexualidade acima dos patamares mundanos.

O Paradoxo da Sensibilidade Tântrica

Quem tomou contato com o Tantra percebe que os métodos sexuais de despertar da kundaliní são mais rápidos e eficazes do que os métodos não sexuais. Em termos médios, o Tantra produziu historicamente mais mestres iluminados em um século do que o patriarcado produziu em 3 milênios. A moralidade está presente em uma sociedade dual e a partir do momento em que a pessoa inicia uma luta contra sua própria natureza – sua própria biologia – um processo de desconexão com o corpo começa: é a mente se desprendendo do corpo, criando uma narrativa de culpa e condenação. O método tântrico funciona porque é simples: o relaxar conduz à meta do yoga, mas querer chegar à meta te distancia dela.

Alinhando às armadilhas que a própria mente produz, o desejar algo faz com que se caia em luta; é bastante complicado um yoga que se dissocie do sexo, porque ele conduz à luta. A oração que fuja do sexo, não é uma oração amorosa pelo simples fato de estar em desarmonia com parte integral de seu ser, a morada da alma e da mente que é o corpo. A desnaturação leva à dessensibilização e a um desalinhamento interior com os próprios chakras.

As percepções de estados mais sutis de consciência podem levar o praticante a uma desconexão sexual, e isso fará com que todo o processo de expansão acabe e é aí que mora o paradoxo. Não é o amor que leva o sexo, mas o sexo vivenciado em sua forma mais mais raiz e sensorial que conduz ao genuíno amor. Mas quando se chega no amor, o praticante acha que pode suprimir a sexualidade e sua base de sustentação para a expansão se descola de si mesmo.

Shiva Nataraj
Shiva Nataraj – o Nataraj do Tantra difere do Nataraj do Yoga: no Tantra, Nataraj se dá ao se reconfigurar as conexões neurais: o bailar dos neuronios é a verdadeira dança de shiva, que se coloca sobre o anão da ignorância.

O “cair” se dá exatamente pelo achar que a sutilização das percepções vai levar a uma vida monástica, quando na verdade o que se vêem são pessoas semeando vento para colher tempestades lá na frente. Se a base da casa que estiver se construindo não estiver bem formada, a casa não terá outro destino além da ruína. Da mesma forma se engana aquele praticante que renega e reprime suas emoções. Por que não as deixa sair? Você nota tantos orientadores falando “sejam bons” e renegando o lado “mau”. Isso acaba criando um problema temporal: se a pessoa reprimir em um momento com rigor precisará desoprimir em algum momento seguinte.

A perspectiva fica sem gosto quando se afasta o natural do Tantra – fluido – do estrutural do Yoga; o primeiro acelera o segundo e vice versa, não é possível dissociar um do outro. No entanto, o reflexo de um muitas vezes afasta um do outro. O jogo dos paradoxos segue e no fim das contas a ausência de dualidade assegura um entendimento mais pleno da realidade conjugada humana.

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